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Os salários de entrada continuam abaixo dos níveis pré-pandemia e a função pública tornou-se refúgio de estabilidade para os jovens. “Quando os salários permanecem estagnados enquanto o horário ou a carga de trabalho aumenta, as pressões psicológicas e financeiras sentidas pela população irão inevitavelmente agravar os sentimentos sociais negativos”, avisa o doutorando em Políticas Públicas na Universidade Politécnica de Macau, Ben Wong. Apesar da recuperação dos principais indicadores macroeconómicos após a pandemia, a evolução não tem sido uniforme entre os diferentes segmentos do mercado de trabalho. Ben Wong observa diferenças significativas entre os salários das funções de base e os setores com remunerações mais elevadas. “Temos observado que, no setor bancário – que emprega uma força de trabalho significativa -, alguns bancos implementaram congelamentos salariais, com os salários de entrada a descerem mesmo abaixo dos níveis anteriores. Isto indica que a economia ainda não recuperou totalmente e apresenta até sinais de uma descida continuada”. Segundo o académico, os salários de funções como “segurança e limpeza situam-se atualmente entre as 10 mil e as 12 mil patacas, abaixo dos níveis anteriores à pandemia”. Nos setores do “Jogo, comércio a retalho e serviços, as remunerações médias oscilam entre as 20 mil e as 28 mil patacas”, valores “superiores ao rendimento mediano global”. Mesmo nos setores onde os salários recuperaram, a situação dos trabalhadores continua marcada pelo “aumento da carga laboral”. Wong aponta que “embora setores como o turismo e o Jogo estejam a esforçar--se por recuperar os salários para os níveis anteriores à pandemia, a carga de trabalho aumentou. Um departamento que no passado poderia ser assegurado por cinco pessoas é agora gerido por quatro, partilhando a mesma massa salarial total”. Para o académico, esta realidade reflete uma atitude de expectativa das empresas perante as perspectivas do mercado: “A falta de confiança leva as empresas a manter apenas os níveis básicos de pessoal”, em vez de “expandirem os investimentos”. “Quando os salários permanecem estagnados e o horário ou a carga de trabalho aumenta, as pressões psicológicas e financeiras sentidas pela população irão inevitavelmente agravar os sentimentos sociais negativos”, diz ao PLATAFORMA. ÍNDICES SALARIAIS COMO MARCADOR SOCIAL A instabilidade do setor privado e as dificuldades de progressão profissional estão também a influenciar as escolhas dos jovens, com a função pública a surgir como uma opção de maior estabilidade. tabilidade da economia de mercado, a estabilidade do sistema da função pública está a intensificar esta contradição”. Para Wong, a forte concorrência nos “concursos da função pública revela que os jovens se sentem inseguros e perdidos quanto às perspectivas do mercado quando escolhem uma carreira”, para procurar estabilidade. O académico aponta o desenvolvimento de Hengqin como uma possibilidade para diversificar as oportunidades profissionais. Considerando os custos relativamente mais baixos de “vida e emprego” na região, defende a criação de postos com “salários ligeiramente abaixo do segmento de 新聞局 GCS uma redução das quotas sem um mecanismo claro de saída poderá provocar uma “perda para os três lados”: as empresas podem “perder competências técnicas necessárias”, os trabalhadores “locais podem não conseguir preencher de imediato determinadas vagas especializadas” e a “ausência de regras claras pode afetar a confiança nas políticas públicas”. Wong defende, por isso, um “mecanismo de saída” de trabalhadores não-residentes “transparente”, acompanhado por dados detalhados sobre a distribuição destes trabalhadores pelos diferentes setores, obrigando as “empresas com uma proporção excessivamente baixa de trabalhadores locais a enfrentar a pressão social e a ajustar-se proativamente”. O académico identifica mesmo uma tendência para os índices salariais da função pública serem utilizados como referências para distinguir “posições sociais”. Wong compara o fenómeno à forma como “Hong Kong estabelece diferenças sociais entre quem vive em habitação pública e quem vive em habitação privada”, considerando tratar-se de uma expressão de uma “mentalidade de classe”. “Embora Macau ainda não tenha assistido a uma polarização evidente, existe uma tendência gradual nesse sentido. Tendo em conta a atual insrendimentos elevados de Macau, mas superiores aos das PME em geral”, abrindo alternativas para funções de gestão intermédia. REGRAS CLARAS PARA TNR A pressão sobre os salários tem também alimentado o debate sobre os trabalhadores não-residentes (TNR). Wong considera que, durante uma fase de “abrandamento económico, a ansiedade da população pode facilmente ser direcionada para esta força de trabalho”. O académico alerta, porém, que REFORÇAR A CONFIANÇA A tendência de descida dos salários de entrada e do rendimento mediano é, para Wong, sobretudo um reflexo da “confiança das empresas no mercado”. Macau “depende fortemente de uma indústria de serviços orientada para a exportação. Durante os anteriores períodos de expansão económica, as empresas estavam dispostas a pagar salários elevados para contratar talento; agora, tendem a reduzir custos e a otimizar recursos”. O académico considera que a situação comporta “um risco de um ciclo vicioso”. Embora a “descida dos salários não seja drasticamente evidente – funcionando mais como um regresso a uma situação em que já não é necessário ‘roubar’ talento -, as exigências das empresas em relação aos trabalhadores estão a aumentar cada vez mais. Isto elimina indiretamente um grupo de pessoas menos capazes. Se esta falta de confiança persistir, irá desencadear problemas mais amplos”. Perante este cenário, defende que a diversificação económica seja acompanhada por “políticas que apoiem a transição das empresas” e, sobretudo, por medidas capazes de “reforçar a confiança”. “A despesa financeira pública e as políticas de bem-estar não devem, de forma alguma, ser reduzidas. Devem ser introduzidas medidas mais favoráveis para aumentar a sensação de bem-estar dos cidadãos, o que, por sua vez, contribuirá para melhorar o ambiente socioeconómico global”, conclui
Plataforma 18/9/26